Abril 22, 2009

Psoríase

Agora entendi, existem dois de mim, um conquistador, belo e sagaz. O outro é um fraco, sem auto-estima e só aparece assim que me vejo na frente do espelho.
Quem escreve esse texto é O Belo, pois O Feio não tem capacidade suficiente para sair de casa, levantar ou socializar.
A única arma contra mim é o espelho, virei todos que tinham pela casa e os que eram pregados apenas tapei com alguma toalha. Quero ver me derrubar!
Sabe quando tudo está caindo? Na manhã que a noite fica mais escura antes de amanhacer, mesmo quando tu sabe que o inverno sempre vira primavera é difícil acreditar que tudo vai melhorar, eu tento, tento, tento, mas o resto das pessoas está em um poço sem fundo e continuam caindo, é tão simples, é só se segurar em algo, mas elas deixam sempre tudo passar despercebido e não conseguem se recuperar.
Eu quero ajudar os outros, principalmente quem eu quero bem, mas saio como vilão, arrogante, sem compaixão e cobrador.
Estou a ponto de desistir de tudo, chega disso! Chega de ter pessoas fracas em minha volta, pessoas sem foco e destino. Nada está bom! Nada! E parece estar tudo tranqüilo!
Lota isso daqui, lota de uma vez!
Só quero poder me tratar e relaxar, esse stress constante só piora a situação que parece se multiplicar e realmente está.
Tire isso do meu corpo, tire O Feio de mim, não consigo conviver com ele! Ele é a causa disso tudo, se não fosse por ele estaria muito mais feliz, com muito mais mulheres, muito mais sucesso.
Tenho vergonha de usar roupas curtas, minto que é alergia do pós-barba, faço de conta que estou com frio, quero ser sozinho de novo, quero somente a mim e não ao Feio.
Duvido que alguém me entenda, ou que goste do Feio.
Joaquim, faça algo, faça algo agora.

(Richard Dawkins)

Julho 28, 2008

Brother

Mais uma noite que passo em casa, mais um ônibus que eu pego para fugir do trabalho, mais pessoas estranhas que eu encontro e mais gente passando fome passam por mim. Nossa cidade é isso, de repente me vejo como mais um invisível, mais uma alma sem dor e sem vibração, o bafo quente de mais uma noite de verão não me afeta dessa vez, me sinto só e deprimido. Tenho na agenda do celular o telefone de umas vadias mas não, dessa vez não, sem sexo forcado essa noite, não quero ficar melhor hoje, não quero fazer ninguém melhor hoje. Hoje é o tipo do dia que todos podiam morrer e eu ir junto, olho para o céu esperando que alguma coisa caia sobre a minha cabeça, qualquer coisa já me deixaria feliz, de preferência o teto, mas o lustre da sala já é o suficiente.

Após umas bongadas desisto e vou para o banho, lá as chances de alguma catástrofe acontecer são maiores, eletricidade e água são coisas que combinam nesses momentos, saio do banho são e salvo, valeu brother!

Ligo a TV, vejo mais uma luta de boxe na ESPN, nada demais, um ruim lutando com um mais pior, sem esquiva, sem vontade, me lembrou bastante minha época de colegial.

Olho para a estante, o CD que ganhei de aniversário das Velhas Virgens, o bom e velho Rock And Roll, valeu brother! Ligo e resolvo dormir, nada melhor a fazer por hoje, adormeço no meio da fumaça.

Valeu brother!

Julho 28, 2008

Mari

Mariana se vê mais uma vez no espelho, seu rosto pálido e suas pupilas dilatadas não escondem sua vontade de entrar no seu reflexo para destruir quem ela vê. Mariana odeia o espelho, ele reflete exatamente o que ela tenta sempre esquecer, ele a faz lembrar de tudo que ela sempre quis ser, de todos os sonhos que ela perdeu, de toda vomitada para ficar no peso ideal.

Mais uma corrida para o banheiro, ela não lembra de ter comido nada vermelho, ela chora e vê mais uma vez seu sangue indo embora, novamente o espelho a chama, ela precisa ver a verdade, ela precisa se ver, ela não quer, ela sofre, mais uma cheirada e ela esquece de tudo.

Pronto, não precisa mais olhar para o espelho, coloca a roupa, pega a carteira do cara dessa noite, tem 70 reais, o suficiente para mais uma ou outra cheirada e chegar em casa de taxi.

No elevador ela limpa o sangue do nariz no espelho, agora ele não faz mais efeito nela, o filho da puta do espelho não faz mais efeito nela, ela está forte, supera tudo e a todos.

Seu vestido, sapato preto e maquiagem não demonstram a dor que ela sente pela noite de prazer, o que deixa a mostra é somente a gigante mancha roxa em volta do seu olho e os chupões no pescoço.

Para ela foi só mais uma noite de sexo e drogas, mariana chega em casa e o telefone toca, o numero ela conhecia muito bem, ela não acredita que era esse numero, podia ser qualquer um, menos esse, na mesa de centro da sala tem uma carreira pronta, ela se prepara antes de atender o telefone, pronto, esta forte de novo.

- Alô?

- Mariana?

- Ricardo, o que você quer?

- Faz 6 anos que não nos falamos, o que ta fazendo da vida?

- Ah, virei juíza e você?

- Ah, realizei meu sonho, agora moro na praia e tenho um restaurante, vamos nos reencontrar?

- …

- Mariana?

- …

- É tu não mudou nada mesmo não é sua teimosa?

- É a vida ta perfeita demais pra ser verdade.

-Sabe o que eu sempre quis fazer mariana?

- …

- Te mandar tomar no meio do olho do seu cu, sua vagabunda, aposto que tu virou uma vagabundinha cheiradora, aposto meu corvette nisso.

- É, acho que tu nasceu para apostas.

Junho 23, 2008

Seu Ricardo

Lá está Seu Ricardo, o mais boa pinta da sua cidade, algo em torno de 2000 habitantes, pelo que lembro a cidade era do interior de Minas, cidade de conto de fadas, ele tinha sua vida boa, sua boa vida na cidade.

Mas como toda cidade pacata, a dele também era pacata.

Tinha seu terreno, sua casa boa, nada de luxuoso, mas era uma casa boa. Os vizinhos o invejavam -cara que boa casa, cara que boa familia, cara que boa esposa, cara que bom carro – escutava invejosos comentando sobre sua vida o tempo todo, mas ele sentia que algo o faltava.

Seu Ricardo sempre foi aventureiro, na verdade Seu Ricardo encontrou aquela cidade por acaso, ele morava em outra cidade, algo como São Paulo, era festa todo dia, o dia todo. Uma cidade para ele, mas ele sentia que algo o faltava. Muitas tempestades o levaram a atracar seu barco por ali, ele comecou a gostar dessa vida, dessa familia, desse carro e desses vizinhos invejosos.

Só que Seu Ricardo é aventureiro nato, 3 curtos anos se passaram e ele sentiu que o mar estava chamando-lhe para ir a procura de novas cidades, novas familias, porque é claro, Seu Ricardo tem sangue aventureiro.

Sem se despedir muito bem dos vizinhos e da família, Seu Ricardo partiu em busca de novos horizontes, a cidade ficou chocada, saiu em jornais e em televisões locais.

O que aconteceu depois daí eu não posso afirma-lhes muito bem, fiquei na cidade.

Pelo que sei depois de uma ou duas semanas de chorumelas a cidade voltou com a programacão normal, a tv voltou a mostrar propagandas de mulheres com pouca roupa e sua familia ja tinha se acostumado com a falta de Seu Joaquim, digo qual era mesmo o nome dele?